terça-feira, 23 de junho de 2009

Caê Rouanet

Caê Rouanet

Letra e música: Heitor Branquinho

Não existe músico novo que faça
Não existe show pro povo de graça
Já não tem empresa querendo patrocinar
Tudo está nas mãos de quem conseguiu se consagrar

No século passado
ou
por meios desviados

Quem tem, quer mais pra ficar bem
Quem não tem, não ganha nenhum vintém
Fica tudo como está
Assim é fácil falar mal

Do mercado cultural
Da crise de identidade
Das grandes cidades
Da MPB

Caê Rouanet
Razão tem você

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MinC autoriza Caetano a usar benefícios fiscais
Produtores do músico podem captar R$ 1,7 milhão

MARCIO AITH
DA REPORTAGEM LOCAL 

O Ministério da Cultura voltou atrás e autorizou os produtores do músico baiano Caetano Veloso a usar os benefícios fiscais da Lei Rouanet para bancar os shows de divulgação de seu último CD, o "Zii e Zie".
A decisão foi publicada no "Diário Oficial da União" de ontem, assinada pelo secretário-executivo adjunto do ministério, Gustavo Carneiro Vidigal Cavalcanti.
A decisão encerra, a favor dos produtores de Caetano, uma polêmica que já dura um mês. No dia 21 de maio passado, a Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC), que analisa os projetos aspirantes ao benefício da Lei Rouanet, decidiu que o "Tour Caetano Veloso", no valor de R$ 2 milhões, não precisava de incentivo por ser comercialmente viável.
A decisão da CNIC foi revelada pela Folha, assim como a pressão da ex-mulher e empresária de Caetano, Paula Lavigne, para que o ministro da Cultura, Juca Ferreira, revisse a decisão e autorizasse o uso de dinheiro público, via renúncia fiscal das empresas patrocinadoras, para divulgar o show.
Em entrevista à Folha no último dia 12, Ferreira sinalizou que a decisão seria reformada, mas negou que Paula Lavigne o tivesse pressionado. "Ela não fez nenhum sauê, apenas ligou para mim e perguntou qual critério tinha sido utilizado para Caetano, que ela não percebia que tinha sido usado para outras pessoas."
Na ocasião, Juca disse à Folha que a Lei Rouanet não tem nenhum critério estabelecendo que os artistas bem-sucedidos não podem ter seus projetos aprovados. "No ano passado, quando eu intervim para aprovar o show da Maria Bethânia [a CNIC também tinha negado acesso da cantora à Rouanet], já tínhamos aprovado projetos da Ivete Sangalo, artista mais bem-sucedida comercialmente em todos os tempos. Não podemos sair discricionariamente decidindo, sem critérios."
A CNIC é um órgão colegiado que pertence ao Ministério da Cultura. O ministro pode, a seu critério, rever as decisões da comissão. O ministério informou, no entanto, que a decisão publicada ontem no "Diário Oficial" não foi do ministro, mas uma revisão da própria CNIC, à luz do compromisso dos produtores de Caetano de baratear os ingressos.
Barato
Com a decisão publicada ontem, os produtores de Caetano foram autorizados a captar R$ 1,7 milhão. O valor representa R$ 300 mil a menos do que os R$ 2 milhões solicitados originalmente. Como condição, o ministério exigiu a redução dos ingressos, para R$ 40 e R$ 20 (inteiro e meia entrada). Sem o benefício da lei Rouanet, o tour de Caetano cobra entradas de até R$ 200 reais.
A Lei Rouanet prevê incentivos fiscais para que empresas e pessoas financiem projetos culturais aprovados pelo MinC. Ela foi aprovada em 23 de dezembro de 1991.

Folha de S. Paulo - 23 de junho de 2009

 

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Sou fã declarado da obra do Caetano, e acho até que ele não tem nada haver com essa história toda.
Mas a produção dele tem e ele poderia palpitar sobre isso tudo ou pelo menos interferir para que não tomem atitudes em seu nome.
Diante desta matéria de hoje na Folha de S. Paulo, não resisti e fiz essa música e letra contestando a forma de política cultural brasileira federal com a Lei Rouanet.
Se dizem que não têm critérios, então que criem!
Posso dizer sobre isso, pois tenho dois discos gravados, totalmente independentes, com as cópias vendidas de mão em mão e viabilizando meu próprio trabalho.
Nunca peguei um centavo de Lei Rouanet e nem sequer fiz algum projeto. E olha que não tenho um público formado, fãs, seguidores, que eu possa fazer shows cobrando 200 reais, nem por 1/4 disso.
Mas continuo na luta contra toda a mídia que empurra cultura imbecil ao público e contra o jabá que coloca o dinheiro acima da arte. Não que a música do Caetano seja imbecil e nem que precise pagar jabá. Claro que todo projeto deve ser analisado de forma individual, mas que ele não precisa desse dinheiro público pra viabilizar sua carreira, isso não precisa.

9 comentários:

danilo disse... Responder comentário

Essa máxima de que "quem tem sempre quer mais" existe desde que o mundo é mundo. O problema é que quem tem é a minoria. E nós, como ficamos?
Essa lei tem como objetivo, difundir projetos culturais. Acho que eu, o Heitor e o Caetano, temos o mesmo direito de usa-la, e sermos beneficiados por ela, mas com critérios diferentes. Porque assim sempre sairemos prejudicados. Como competir assim? As empresas sempre optarão em associar sua imagem à quem tiver maior visibilidade, e assim fortalecendo o peixe grande e nos obrigando a viabilizar nossos projetos como o Heitor, eu e uma nação de músicas, com nossos discos embaixo do braço.

Alex Tiso disse... Responder comentário

Hector, tô contigo nessa. É sempre assim, só peixe grande consegue. Eu que o diga o quanto temos que lutar por isso. Estamos aqui suando a camisa pra entrar com aquela burocracia toda pra ver se consegue aprovar a sede nova do Conservatório. Que luta viu!!!!!!
Abração pro cê.

Aden Santos disse... Responder comentário

A lei está aí,especialmente para quem tem esquema com advogado e pessoas de influência e grana para fazer as pessoas se "interessarem" pelo seu trabalho novo.

Quem não tem as primeiras prerrogativas, está ferrado neste país.

Prefiro ouvir a obra de certos compositores esquecendo, as vezes, que eles são pessoas, caso contrário ficaria difícil.

É como falar de comunismo jogando futebol em campo particular e com as contas repletas de direito autoral...falar de miséria morando de frente pro mar...

É sempre a mesma coisa...

Kellen disse... Responder comentário

Independente que os shows dele sejam 200 ou 20 continuará lotado. Pô gigantesco o lucro que ele tem nesses shows!!
E a gente aqui...
Lutas interminaveis que temos de fazer prá alcançar algo e apenas os grandes conseguem ?
Falta de consciência!

Que sejá pela arte, livros, fundações , espetáculos, cinema, são tantos projetos culturais que ficam esperando e esperando...

É revoltante.
Mas o pequeno um dia cresce!!

http://ivonefs.blogspot.com disse... Responder comentário

"Assim é fácil falar mal

Do mercado cultural
Da crise de identidade
Das grandes cidades
Da MPB "


gostei desta voz que denuncia! faço coro

bjss...

Milton Lima disse... Responder comentário

Branco Bily

To contigo mano..
Nada contra o artista em si. Mas algumas coisas que rolam nesse nosso país chegam a dar ânsia.

Gostei da iniciativa
e da música Tb

Vlw

TATIANA SÁ disse... Responder comentário

Heitor, com 2 milhões eu fico mais do que famosa!!!
Valeu por passar no blog.

rs
ps: gostei da letra.
Bjo

Other Voices Other Rooms disse... Responder comentário

Muito bem meu caro, excelente iniciativa essa musica para mostrar o descontentamento da classe artistica em relação aos abusos sobre a captação de grana em forma de renuncia fiscal.

enquanto vários grupos de teatro vivem sem grana nenhuma, (tendo que se apresentar quase de graça) esse baiano velho e chato consegue dinheiro publico para fazer mais do mesmo a anos.

mas tudo bem, tudo bom, o miguel falabela vai estreiar um musical com a ivete sangalo no papel principal...quem paga por isso? vc, pobre cidadão brasileiro.

Isabela disse... Responder comentário

Isso reflete uma situaçao que enolimos, mastigams a contra gosto e reproduzimos tantas vezes sem nem perceper. É como acompanhar o maior evento cultural gratuito da America Latina - A Virada Cultural Paulista - e nao se incomodar com a forma como os esptáculos acontecem e as milhoes de faixas do Governo do Estado. (Em Araraquara a apresentação da orquestra de violas por exemplo o som estava muito mal regulado e o sol batendo na cara dos velhinhos - enquanto a praça onde se consagraram as manifestações populares ao longo de séculos torna-se cada vez mais privatizada).
A dita "democratizaçao" dos espaços, das culturas e etc etc continua perpetuando uma cultura burra, cega, surda e muda.
Nem é tão de espantar que quem tem como chegar lá se aproprie dessas brechas que lhes sã apresentadas.
Estudando um pouco o período "áureo" da Música Popular brasileira e analisando um pouco mais atentamente que seja a nossa realidade fico com medo da conclusao que chego: de que nunca estivemos tão proximos de 45 anos atras (1964, pra quem esta ruim de conta!) com a diferença de que o discurso democrático nos deixa a doÉ preciso ce ilusão de que os tempos mudaram...


mas apesar de todo o pessimismo de minha fala, eu concordo com o grito do branquinho e cito grande e sábio Vinícius Moraes (em parceria com o grandioso Carlinhos Lyra)

"E no entanto é preciso cantar
MAIS QUE NUNCA é preciso cantar!!!
É preciso cantar e alegrar a cidade..."